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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

por Eugenio Mussak

"(...)

A rotina que mata o amor é a rotina do que não se faz. Da declaração de amor que deixa de ser feita, do elogio economizado à roupa simples do dia a dia, do sorriso sonegado ao acordar, da palavra de carinho roubada à despedida, da comemoração não feita em qualquer conquista, do boa noite seco, sem um beijo, antes de dormir.

O amor não se sustenta sem a intenção de amar e sem a ação pequena, mas constante, de alegrar o outro com sua presença. (...)"




sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Ele x Ela

Ele é conciso.  Ela é prolixa. Ele busca o chão. Ela quer asas. Ele tem a alma serena. Ela é um interior em polvorosa. Ele é complexo. Ela é profunda. Ele medita. Ela se agita. Ele faz perguntas. Ela tece explicações. Ele tem fome de cultura. É disso que ela se alimenta. Ele falta. Ela excede. Ele tem sono fácil. Ela sofre de insônia. Ele diz obrigado. Ela pede desculpas. Ele tenta não ser. Ela já não é. Ele tem adeus breve. Ela se apega a despedidas. Ele é reservado. Ela se expõe. Ele dedilha incoerências. Ela também. Ele se intimida. Ela acha graça. Ele abre caminhos. Ela segue com medo. Ele coleciona questionamentos. Ela busca esclarecer. Ele quer ser racional. Ela é pura emoção. Ele ultrapassa limites. Ela se ressente. Ele é estrada. Ela é correnteza. Ele tem voz suave. A dela se embarga com facilidade. Ele é diplomático. Ela não suporta formalidades. Ele age. Ela reage. Ele tem olhar embriagante. Ela se entrega ao vício. Ele é equilíbrio. Ela é exagero. Ele é enigma. Ela é desafio. Ele é comedido. Ela não se impõe limites. Ele elogia. Ela se envaidece. Ele é gentileza. Ela é meiguice. As palavras dele soam como haikais. As dela, como prosa sem fim. Ele é low profile. Ela procura ser. Ele ensina. Ela aprende. Ele aprende. Ela ensina. Ele analisa. Ela apoia. Ele tem sorriso contagiante. Ela se contamina. Ele é confuso. Ela se perde. Ele interroga. Ela não faz cobranças. Ele foi embora. Ela sente saudades.


quarta-feira, 7 de julho de 2010

A efemeridade do amor.

- A gente tem uma identificação incrível!
- Concordo plenamente.

(...)

- Eu gosto do verão.
- Ah, eu adoro o inverno!

- Ih, então, vamos terminar?
- Acho melhor.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida".

[Pra você, que foi uma doce epifania na minha vida.]


Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. (...) Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão (...). 

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

(...) A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. (...)

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

Texto de Caio Fernando Abreu (Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)

domingo, 4 de julho de 2010

Amor incondicional.

“Amar não é aceitar tudo. Onde tudo é aceito, presumo que há falta de amor.” 
(Vladimir Maiakovski)


Já questionei muito a existência do amor incondicional. Duvidava dela com todas as minhas forças interiores. Até que, há poucas semanas, foi-me emprestada uma definição tão simples e tão apropriada para esse sentimento, que descobri que eu mesma sou, sim, capaz de amar incondicionalmente. E que até já amei; só não tinha me dado conta.

Amei incondicionalmente meu pai; amo incondicionalmente meu filho e alguns poucos amigos. Já amei incondicionalmente duas pessoas com quem vivenciei uma relação homem-mulher. E amei, mais incondicionalmente ainda, as efêmeras possibilidades de amor que nunca se concretizaram.

A definição que eu gosto, e que me esclareceu muita coisa acerca desse sentimento, é do físico e psicólogo Peter Russell, em Acordando em Tempo, onde o autor trata, com peculiar sensibilidade e simplicidade, das inquietações mais comuns da humanidade, por meio de uma visão que integra a natureza evolutiva da civilização à busca incessante pela harmonia e pela paz interior.

“Amor incondicional não é a aprovação incondicional das ações de alguém, sem considerar seus efeitos sobre os outros. É amor incondicional ao ser que está por trás das ações. (O amor incondicional) não depende do modo que uma pessoa pensa, sente ou se comporta. Não faz uma pausa para avaliar se o outro é ou não digno de afeição”. (Russell, 2006).

Definição tão simples e tão verdadeira! Porque amar incondicionalmente é isso: é não ficar aprisionado em palavras, gestos ou eventos conjunturais; é amar com desinteresse, compaixão, inclusão, perdão, tolerância, compreensão e desapego; é amar sem posse; é perdoar com sabedoria, justiça – e até gratidão – as dores causadas pelas desilusões habitadas no cotidiano; é compreender que tudo isso é diminuto quando comparado à grandeza da alma de quem se ama.

É por isso que, muitas vezes, temos que deixar partirem aqueles que amamos incondicionalmente. Porque “o verdadeiro amor liberta, deixa ir e continua a querer bem”.

Aliás – perdoe-me, Russell –, mas a melhor definição de amor incondicional de que eu já tomei conhecimento, veio de uma criança de 3 anos, quando, tão inteligentemente, esclareceu à mãe: “I love you, but I don’t like you ALL the time”. E a mãe, mais inteligentemente ainda, agradeceu esse amor.

Pare para pensar quanta verdade existe nessas declarações. Amar incondicionalmente, para mim, é isso. É amar além; é amar apesar de. Sem necessariamente aprovar ou ser correspondido.

sábado, 3 de julho de 2010

...


























E um simples toque de mãos fez demonstrar que tudo – ou quase tudo – estava em ordem novamente, como eles pretendiam. A diplomacia deu lugar à intimidade. Não à velha e confortável intimidade com a qual estavam acostumados a lidar, mas a uma nova, com a qual terão de aprender a conviver. Só os olhos já não bastam mais para dizer verdades. Hoje são necessárias palavras. Nem tudo é mais como era.

E foi assim que, com uma boa dose de civilidade, do pequeno caos fez-se a calmaria.

E ela viaja em paz.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Aceitas um desafio?

Tenho meus atrativos, é verdade. Mas não sou nada fácil. Pergunta àqueles que me deixaram de amar. São os que melhor me conhecem.

Levo o desassossego dentro do peito, a ansiedade no âmago, a indecisão estampada na testa e a insegurança na essência. Meu exterior pode parecer sereno, mas meu interior é um tsunami. Minhas atitudes confiantes nem sempre demonstram o tanto de dúvida que vai dentro de mim.

Minha alma é livre; não se deixa aprisionar. Quanto mais lhe exigem, menos se sente disposta a doar. É generosa, mas não suporta cobranças e quase nunca está disponível para o ciúme.

Meu coração é instável; desinteressa-se à toa. Hoje, quer desesperadamente; amanhã, não pode nem ouvir falar. Muda conforme a lua. Mas, quando ama, ama incondicionalmente – o que, fique claro, nada tem a ver com aprovar incondicionalmente. Não se contenta com pouco; necessita daquilo que lhe rouba algumas batidas.

Meu ritmo mental é alucinante e minha sede de conhecimento, poucos acompanham. Sou uma palavra que não cala, uma alma que nunca se sacia. Sou tão profunda, que muitos se afogam em mim.

Interesso-me por tantas coisas, que fica difícil manter um foco e me dedicar a elas o suficiente para que eu me sinta plenamente realizada. E a cada ciclo, acrescento novas coisas à lista de paixões, interesses, hobbies e projetos inacabados. E enquanto o universo de possibilidades se amplia, eu sigo sem dar conta de tudo.

Chego a ser pesada!  Estou sempre buscando respostas e entendimentos. Às vezes, gostaria de não ser tão complexa. Invejo a simplicidade; ela permite desfrutar melhor do trivial.

Cultivo o vício quase insano de ler e a necessidade basal de escrever – me ajuda a organizar os pensamentos. Por isso, venero o silêncio e a solidão. Às vezes, afasto de mim quem tenta se aproximar.

Adoro sorrir! Mas, de tempos em tempos, preciso muito chorar. Perco o sono ao menor sinal de angústia e enfrento a insônia como uma criança com medo do “bicho papão” embaixo da cama. Quem me entende desse jeito?

Queres saber? Proponho-te um desafio: Tentes gostar de mim, assim, do jeito que eu sou.

Já adianto: muitos falharam.

domingo, 27 de junho de 2010

O gato é que sabe viver.

“O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. (...) O gato é um médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba receber!” (Artur da Távola)
...
O gato é que saber viver. E demonstra, em cada gesto, tal sabedoria. Invejo muitos aspectos do estilo de vida do gato e tenho muito que aprender com ele. Conviver com o gato é uma verdadeira lição de vida.

O gato é livre e preza essa liberdade. Ai de quem tentar privá-lo dessa condição! O gato veio ao mundo para ser assim. E se aceita viver com seres humanos, é em interesse próprio e em regime de comunhão total de bens: o gato passa, também, a ser dono da casa; faz dela seu território sagrado.

O gato é independente. Pede carinhos, mas retribui se sentir vontade. E se for negado carinho ao gato, ele sequer liga. Porque o gato é senhor de si. Não se abala com pouco. O gato é bem resolvido e não guarda carências. O gato, definitivamente, não é escravo do afeto.  As pessoas deveriam aprender com o gato e seriam mais felizes em seus relacionamentos.

Além disso, o gato não é dado a negociações. Ele decide quando, como e onde. Os seres humanos que aceitem, se quiserem. Não querendo, o gato não esquenta a cabeça, porque é autossuficiente; ele pula, corre, brinca, rola, deita e dorme. Porque é sábio, o gato, e conhece os benefícios de uma boa dose de sono diária. E dorme com entrega total. Não perde o sono com ansiedade e preocupações.

O gato é intenso! Vive na plenitude. Brinca como uma criança despreocupada em um parquinho de diversões. Tem andar elegante e preciso – como os movimentos de uma experiente bailarina. Tem uma autoconsciência corporal que idolatra e resguarda. Tem personalidade caçadora e um ar meio blasé. O gato faz da vida o que quer; é curioso e aventureiro.

Tem olhos intimidantes e misteriosos. O gato sustenta aquele olhar vago, distante, quase ausente, absorto em seus próprios pensamentos. Tente decifrar o que vai no interior do gato nesse momento. Ele vai achar graça! Quem de nós consegue um período de introspecção, sem ser importunado por perguntas do tipo: “o que você está pensando?”; “está tudo bem?”, “por que você ficou tão quieto de repente?”.

O gato gosta do silêncio; não mia à toa. É meditativo e venera o isolamento. Afronta a solidão com valentia e grande satisfação de estar só.

O gato é preguiçoso. E entrega-se à preguiça sem culpa. Adora descansar! Se algo desperta o interesse do gato durante um cochilo, ele abre um olho apenas e checa o que se passa à sua volta. Só aí decide se torna a cochilar ou desperta para explorar seu território.

O gato ama sem apego. Porque o gato é do mundo e não admite a posse. O gato ama livre, ama independente. Jamais aceita cobranças; nunca acata ordens. O gato exige ter sua individualidade respeitada. Porque o gato determina seus momentos de ficar sozinho e exige que sejam atendidos. Às vezes, é tão difícil às pessoas entender o apreço alheio por momentos de solidão. É quase um tabu nas relações pós-modernas.

E, quando o gato ama, diria Quintana, ama baixinho, sem gritar seu amor de cima dos telhados. Ama com discrição e maturidade. Ama com inteligência. O gato não assedia, não importuna com pedidos e carências a serem supridos. Quantos relacionamentos humanos são assim?

O gato é da vida e busca obter o máximo dela. É feliz com pouco; qualquer novelo de lã o diverte. O gato não se preocupa com o que os ‘outros’ pensam dele; o gato não tem medo de fazer papel de bobo. Mas o gato é orgulhoso. E, uma vez traído, nunca voltará a confiar.

O gato é vaidoso. Quer sempre estar limpo. Sua pelagem é seu templo. Quando se lava, evita contato com os seres humanos. Se tocado, volta a se limpar. A higiene, para o gato, é um ritual sagrado.

E o gato é teimoso. Tente convencer o gato a tomar banho ou remédio, a cortar as unhas ou simplesmente a sair de onde ele quer ficar. O gato volta. Quantas vezes precisar. Se não volta, é porque a vontade passou. O gato nunca se curva aos seres humanos. Não se submete porque não sente a necessidade doentia de agradar o tempo inteiro. O gato é autêntico e não ama se anulando. Já os seres humanos...

Ter um gato em casa é entender o amor sem posse. Amar um gato é amar incondicionalmente, porque nem sempre o gato vai estar disposto a demonstrar amor. Porque o gato não veio ao mundo para satisfazer as obrigações doentias do amor possessivo – que é tudo, menos amor.


...

Dois gatos me tiveram nessa vida:

Lisa, a gatinha vira-latas, nascida na hípica, que me escolheu para ela, entrando, ainda filhotinha, no meu carro e na minha vida. Na foto, já nos últimos dias de vida, hipotérmica e impossibilitada de andar, por conta de um tumor imenso na coluna. Só queria saber de ficar embaixo do meu edredom ou no colo, na tentativa de compensar a hipotermia - ela, independente e dona de si, que nunca fora de colo.  Foi uma guerreira! Lutou até o final. Morreu na mesa de cirurgia, pelas mãos da veterinária mais humana que eu conheci em toda minha vida, que nos propôs levá-la para a mesa de cirurgia, na tentativa de retirar o tumor (essa mesma veterinária salvou meu cavalo  - com homeopatia - de uma cegueira à qual outros veterinários já o tinham condenado). O que  me comoveu foi a sinceridade e sensibilidade da Dra Serena, quando me disse: “Lê, o que estou fazendo pela Lisa, é uma forma humana de sacrificá-la. Não estou abrindo mão da tentativa de salvá-la, mas esteja consciente de que as chances são mínimas”. E o coraçãozinho dela não aguentou. Acompanhou-me por 14 anos e me deixou em 2006.


Gaia, minha grande companheira, durante 15 anos, que morreu, em casa, justo no dia do meu aniversário do ano passado, de insuficiência renal. Foi uma guerreirinha também, porque, quando  filhote, sofreu uma queda da janela do quarto andar. Passou por várias cirurgias, muitos dias de internação e grande parte da vida com pinos, fios de aço e todas as demais sequelas do acidente, sem nunca perder a alegria de viver.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Se puder, sem medo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre a tolerância.

A vida me ensinou uma coisa que procuro adotar com o máximo de rigor possível no meu cotidiano.

Quando algo não é da maneira que eu gostaria que fosse, tento, com todas as minhas forças, respeitar as escolhas dos outros, por mais que isso me cause algum tipo de desconforto. Acredito fielmente que não devemos julgar uma pessoa pelo prazer ou pela dor que as atitudes dela nos causem. E procuro colocar isso em prática na minha vida, com afinco.

Nem sempre é possível, claro, mas, praticando, tem-se tornado cada dia mais natural ser assim e, por isso, tenho-me saído bem nesse aspecto nos últimos tempos, sem precisar gastar muita energia.

Ser tolerante, da forma como coloquei, de jeito nenhum significa que eu não me dê o direito de não gostar de certos comportamentos. Permito-me não concordar com certas coisas, mas procuro entender o outro lado, por mais que me incomode ou que eu não aprove.

Além disso, ser tolerante tampouco significa que eu nunca exponha o meu descontentamento. Acho que podemos, sim, de vez em quando, dizer: “Olha, não gostei, mas estou tentando entender o porquê de você ter feito isso. Vamos conversar a respeito?” É uma forma ‘homeopática’ e tolerante de expressarmos o nosso incômodo ao autor da ação. Acredito que, muitas vezes que deixamos de fazer isso, corremos o risco de despejar em cima do outro todo aquele desagrado acumulado que ficamos alimentando dentro de nós e que se acaba tornando um veneno perigoso.

Enfim...

Por mais compreensiva que eu tenha sido ultimamente, tem, sim, um desapontamento precisando ser noticiado a quem ele diz respeito.  Eu só não sei ainda se devo. Porque, francamente, não sei como a pessoa vai entendê-lo. E eu verdadeiramente me importo com o que ela pensa.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Dialética da separação.

Li, não sei onde, que demonstra maturidade amorosa quem sabe terminar uma relação valendo-se do mínimo de palavras. E acho que concordo com isso (não sei desde quando). "Se o adeus demora, a dor no coração se expande..."

Para duas pessoas que se despedem, a dialética da separação é quase um ritual de autoflagelação do qual não conseguem escapar. O rompimento dá palco para dramas e tragédias, as palavras perdem sua consistência. Passa-se a interrogar o já dito, tenta-se buscar explicações que justifiquem o que o outro decidiu, silenciosamente e em segredo. Pior, começa-se a questionar as próprias determinações. Quando tudo finda, melhor guardar o que não tem mais lugar ao se abreviar a relação.

Rompimentos já são duros por eles só. Quanto mais sucintos, menos doloridos. Quando tudo termina, é sábio não fazer muitas perguntas, como também é sábio não responder a tudo. Na perspectiva de socorrer um relacionamento, palavras e mais palavras podem ser um admirável cerimonial de salvação. Mas, quando a separação já está firmada, quando a quebra do vínculo é evidente, a concisão é uma virtude. Qual o propósito de se debater o que já pereceu? Por que reviver a dor se não há a possibilidade de resgatar o que existiu?

Quando tudo termina, simplesmente cale-se: não pergunte aquilo que você não precisa saber. E, se perguntado, não responda tudo. Já dizia Confúcio: ‘o silêncio é um amigo que nunca trai’.

Acho que cansei de ser prolixa...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Her Morning Elegance.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

A love letter.

[Contrariando por completo o ponto de vista que defendi no meu post de ontem, publico hoje esta carta]


Oi, Lelê, minha loirinha bonita de cabelos cacheados.

Resolvi escrever-te esta carta porque notei que alguns assuntos ficaram pendentes entre mim e ti. E, nós sabemos, tu e eu detestamos pendências e ressentimentos.  Ponhamos, então, os pingos nos ii!

Por ter mais idade que ti, julgo-me capaz de dar-te certos conselhos, para que possas evitar alguns dos erros em que eu incorri durante esses anos todos. Quem sabe, assim, compensar-te-ei pelas falhas que cometi em relação a ti. Procura perdoar-me, por favor. Assim, talvez, eu consiga te desculpar por algumas coisinhas pelas quais ainda te condeno.

Primeiro, gostaria muito de pedir-te: deixa, de vez por todas, essa ansiedade de lado. Ela não te ajudará em nada. Ao contrário, fará com que percas o foco no teu presente e te lances desesperadamente ao futuro (lugar que pertence mais a mim que a ti, convenhamos), esquecendo-te, assim, de dar a atenção que teu momento merece. Acredita: sempre haverá coisas das quais não terás controle. Faça tua parte, o melhor que puderes, e deixa o resto nas mãos de Deus. Caso contrário, tua saúde - física e mental - cobrar-te-á caro por isso.

No entanto, muito menos te apegues ao passado, querida, carregando o peso dele em teus ombros magrinhos. Ele já passou... tanto para ti, quanto para mim. Aliás, tem sido um alívio me livrar dos fantasmas do nosso passado, menina.

Também não sejas tão exigente contigo mesma – só nós sabemos o quanto isso é difícil para ti - e nem com os que estão à tua volta. Eles são, muitas vezes, os teus anjos da guarda, enviados por Deus, para guiar teus caminhos e te orientar. Confia neles!

Tampouco te preocupes em agradar o tempo inteiro. Seja doce, gentil, carinhosa – como bem sei que és -, mas não abra mão da tua essência; ela é teu alicerce e será até o fim de tua vida. Procura sempre melhorar, mas o faça por ti, nunca pelos outros. Quem gosta de verdade de ti, amar-te-á incondicionalmente, mesmo que venhas a falhar – o que, de fato, acontecerá, posso garantir. Muitas vezes.

Por favor, para de tomar decisões impensadas. Quando surgirem obstáculos ou bifurcações em teu caminho, não hesites em parar, analisar a situação com visão sistêmica, pensar muito e, somente depois de julgar já a conhecer e a ter compreendido, aí sim, executa a ação necessária. Se não prestares muita atenção nesse conselho, sofrerás demais com escolhas indevidas; bem sei disso.

Tenta ser senhorinha das tuas emoções e dos teus desejos; não deixes que eles te controlem. Saiba que nem sempre isso será fácil, ou mesmo possível, mas começa a treinar desde já. Precisarás muito dessa habilidade daqui pra frente.

Aprenda, também, o quanto antes, que não é possível exigir o amor de ninguém. Por isso, dá boas razões para que gostem de ti e deixa que a vida se encarregue do resto. Procura não julgar o caráter das pessoas pelo prazer ou pela dor que as atitudes delas te causam. Tenta compreendê-las, sempre que possível.

Tua travessia por esta vida não será sempre por mares tranquilos. Mas, cada vez que sofreres golpes do infortúnio, tornar-te-ás mais forte e mais confiante de alcançar teus objetivos.

Aprenda com os outros; seja humilde e inteligente a esse ponto. Dá-te o devido valor, acredita em teu potencial; sofra menos, saia mais, aproveita com mais intensidade... e nunca, nem por um segundo, deixes de te apaixonar pelas coisas simples e belas da vida, porque é a paixão que te levará a experimentar as coisas mais deliciosas da tua existência! E, ah, cometa aqueles erros que são inevitáveis o mais cedo possível!!!

Quando chegares à minha idade, entenderás o que quero dizer. Sendo assim, planta apenas boas sementes e, com certeza, colherás ótimos frutos!

Te espero. Teu lugar no meu futuro está reservado. Não te esqueças de que eu te amo!

(Carta escrita pela Letticia que eu sou em 2010 para a Letticia que eu fui em 1990) – se fosse possível.


Léo e Bia


"Como se faz com todo cuidado
A pipa que precisa voar
Cuidar de amor exige mestria
E Léo e Bia souberam amar..."

sábado, 12 de junho de 2010

Café improvável.


Ela está completamente sozinha, absorta em uma leitura de orelha de livro, e, ao mesmo tempo, imersa em seus pensamentos. Está sozinha porque é sua melhor opção neste momento.
 
O ambiente álgido, cafeteria em estilo europeu, prateleiras repletas de livros, chocolate quente para aquecer o espírito. 
 
Ela começa a folhear o livro, quando percebe a presença dele: um homem de rosto sereno, porte intelectual, andar elegante, olhar inteligente por trás de lentes finas.
 
Exatamente ao mesmo tempo, constatam que ambos têm nas mãos o mesmo livro: “Contos Filosóficos do Mundo Inteiro”, de Jean-Claude Carrière.
 
Sorriem da irônica coincidência. Dois estranhos vivenciam uma sublime sintonia.
 
Ele, então, pergunta se pode sentar-se com ela. Café forte, opiniões convictas, palavras bem pronunciadas, tempo que voa imperceptível.
 
Ele sabe que atrai e flerta sem grandes reservas; ela deixa-se levar pela improbabilidade do momento.
 
Olhares se cruzam. Opiniões e impressões são trocadas. 

Eram apenas palavras...