“Sou eu que vou seguir você do primeiro rabisco até o bê-á-bá”.

Educar filhos é tarefa complicada! É, antes de tudo, NOS educarmos. Exige calma, humildade, esforço cotidiano e tolerância para chegarmos até a essência deles. E é aí que acabamos por descobrir a nós mesmos; nossas imperfeições e limitações, nossos anseios, nossas projeções.
Meu filho tem 7 anos e uma consciência tão grande do que se passa à volta dele que às vezes me assusta e me dá a sensação de que tenho muito mais a aprender com essa ‘pessoinha’ do que ela comigo.
Em casa, costumamos brincar que a cegonha cometeu um erro de logística: o Lucca deveria ter sido entregue à minha irmã mais nova. Ele é exatamente como ela quando criança: estabanado, desorganizado, vive trombando nas quinas e aprontando molecagens. É agitado que só ele! Minha mãe constantemente dizia pra filha caçula: “Quando crescer, você também vai ter uma Liginha”. E, todos sabemos, “praga de mãe pega”! Só que o ‘Liginho’ veio pra mim. :)
Apesar de atrapalhado, o Lucca parece outra criança no que diz respeito à atenção que dispensa ao que se passa à volta dele; é uma criança muito perceptiva. Parece sempre estar prestando mais atenção no entorno dele do que em si próprio. Não sei até onde isso é salutar, mas é uma característica bastante evidente nele. Não deixa escapar nada; capta todos os detalhes no ar.
Também é uma criança extremamente sensível e preocupada com os problemas do mundo, com os menos favorecidos, com os doentes e os idosos. Tem um grande senso de justiça. Não tem dificuldade de dividir nada material, mesmo que isso signifique abrir mão de algo que é importante para ele. É uma criança verdadeiramente humana, sensível e consciente das necessidades alheias.
Duas ou três vezes em que o guincho da Porto Seguro nos prestou assistência – eles oferecem aquela merendinha embalada para os assegurados –, o Lucca procurou algum morador de rua para repassar o lanche que recebemos como cortesia. Afinal, “nós temos comida em casa e não vai nos fazer falta, né, mamãe?” Ele também participa com satisfação de campanhas de doação de agasalhos e brinquedos nos supermercados que frequentamos e fica muito chateado quando alguém joga lixo no chão; muitas vezes, ele mesmo recolhe. Aliás, confesso: foi ele que me ensinou a reciclar.
Certa vez, expressou toda sua decepção em relação a mim com o fato de eu não ter respeitado a Hora do Planeta (projeto que convida as pessoas a desligarem as luzes de suas casas por uma hora, a partir das 20h30min, em um dia específico). Foi dormir emburrado nesse dia e decepcionado com a própria mãe.
Ele é extremamente carinhoso e tem um coração que não cabe no peito! Tenta, a todo custo, suprir as necessidades afetivas dos que convivem com ele. Quer sempre agradar, à maneira dele. Sente-se responsável por diminuir todas as carências da avó e, às vezes, fica dividido entre estar comigo e estar com ela, porque sabe que ela precisa mais dele do que eu.
Ele adora sentir-se útil. Muitas vezes, expressa com palavras aquilo que eu mesma estou sentindo e oferece sua companhia, simplesmente para ‘estar lá’ nos momentos em que entende que eu preciso. E, aí, a criança agitada é capaz de passar horas deitada ao meu lado, me fazendo cafuné e perguntando insistentemente se preciso de alguma coisa.
No entanto, o que mais me impressiona é o vocabulário rebuscado que ele, desde cedo, apresentou. Ultimamente, mais do que nunca. Ele traz certa poesia no que diz, mesmo que em forma de prosa, que me encanta e orgulha cada vez mais. Ele se expressa de forma madura e surpreendente. Seus comentários são sempre muito bem contextualizados; defende seus pontos de vista com argumentos coerentes e bastante inteligentes.
O Lucca tem apenas sete anos e carrega consigo todo o peso da idade. São tantas as responsabilidades que ele tem de administrar: acordar cedo para ir à escola, fazer lição (um monte!), provas, leituras, aula de natação, aula de esportes, curso de robótica... Além disso, ainda tem que ser um bom filho, um bom neto, um bom sobrinho, um bom amigo, um bom parceiro (ele diz que meu cunhado é parceiro dele). Às vezes, acho que são coisas demais para alguém tão novo.
Sinto que o tempo voou nesses últimos sete anos e que a criança que existia em casa deu lugar a um mini-adulto cedo demais.
Socorro! Meu filho cresceu. E eu mal percebi.
Desculpem se pareço ansiosa. Mas ele, que tem só SETE anos, acabou de me perguntar qual é a raiz quadrada de 9. (!!!)
Comentários recentes do Lucca:
Lucca: Mamãe, qual é a raiz quadrada de 9?
Eu: O que?????
Lucca: Raiz quadrada. No seu tempo de escola não ensinavam?
Lucca: Mamãe, esse poema é tão lindo que encantou meu coração inteiro. Obrigada. Se não fosse por você, eu jamais teria conhecido essa poesia. (Metade, do Oswaldo Montenegro, que ele ouve sem parar.)
Lucca: Mamãe, cheguei para alegrar o seu dia!
Eu: Que coisa ótima, meu amor! Mas o que é essa mancha vermelha no seu olho? Se machucou na escola?
Lucca: Não, é só um pingo de tinta.
Eu: Ah, vocês brincaram com tinta hoje?
Lucca: NÃO! Nós TRABALHAMOS com tinta, mamãe.
Eu: Lucca, não está na hora de ir pra cama?
Lucca: Não, mamãe, ainda estou muito ativo para pegar no sono.
Eu: Lucca, o que você está fazendo embaixo da mesa com essa chave de fenda?
Lucca: Estou tirando os parafusos de um dos pés, porque preciso fazer uma experiência.
Eu: Mas quem será que contou isso pra Fulana?
Minha mãe: Só pode ter sido o Beltrano.
Lucca: Acho difícil, vovó, porque o Beltrano é uma pessoa MUITO reservada.
Eu: Tá um frio na rua, filho!
Lucca: Eu que o diga hoje de manhã!
Eu: Muito frio, é?
Lucca: Frio? Estava gélido e um hálito branco saía da minha boca.
Lucca: Mamãe, antigamente, eu era o único amigo que a Gigi tinha. Hoje, ela é a garota mais popular da escola e já não liga muito pra mim. Sorte dela, azar o meu.
Lucca: Vovó, você sabe o que é tal coisa? (Esqueci qual foi a pergunta)
Minha mãe: Não sei, Lucca, mas a gente pode pesquisar quando chegar em casa.
Lucca: Não precisa, vovó, eu sei o que é. E entendo que você não saiba. A minha escola realmente ensina coisas que os outros colégios não ensinam.
Minha mãe: Lucca, por favor, recolha todos esses brinquedos espalhados pela sala e leve para o seu quarto.
Lucca: ...
Minha mãe: Ainda não recolheu? Por que a demora?
Lucca: Estou juntando tudo para levar de uma vez só. Me diz agora: quem é o inteligente aqui?