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sábado, 31 de julho de 2010

Desnorteio.

Pergunto-me, incansavelmente: onde foi parar minha ingenuidade pueril (aquele misto de desconhecimento cego e inexperiência agradável que me conferia tanta serenidade)? Quem a levou? O tempo?
 
Ah, o tempo! Este intátil e impiedoso que me rouba os anos... quantos ainda será que me reserva?
 
Sento, emudecida, e pondero: que sabor de desnorteio é este que sinto?
 
E a grande estrela do céu, sem questionar, aquece minhas indagações...

sábado, 24 de julho de 2010

Aprender a voar.

Essa viagem me deu asas. E eu estou aprendendo a voar.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Partnership for Peace.

"De onde se planta a paz, da paz quero a raiz".


(...)

Este país, de onde escrevo, em meus últimos dias de férias, ficará para sempre em minha memória como o lugar no qual fui capaz de respirar a verdadeira independência. Sinto que, finalmente, criei raízes dentro de mim.

Em uma permanência pacífica, redescobri um conforto que ficara esquecido em algum lugar pelo sinuoso caminho do autoconhecimento.

Foi mais ou menos assim: olhei ao redor e estava sozinha. Vi-me sentada em uma imensa rocha, no topo de uma montanha, deslumbrando aquele horizonte [de possibilidades?] aparentemente infinito. E a natureza, imponente e tranquila, manifestando-se para mim. Parecíamos cúmplices daquele grande evento que estava se passando dentro de mim.  Éramos as únicas testemunhas: eu, a natureza, meu coração tranquilo e minha mente esvaziada de anseios.

Como era linda aquela paisagem que, de repente, vislumbrei, sozinha, no interior daquele quartinho mal iluminado!

É isso mesmo. Tive essa catarse lá mesmo, sentada em uma cama, pernas cruzadas, olhos, coração e mente abertos, em um quarto desconhecido e silencioso - que muito me dizia.

Sabe o que isso pode significar? Que talvez eu não precisasse ter vindo tão longe para me reencontrar. Não me arrependo de nada. Passei por experiências incríveis! Mas talvez eu apenas devesse ter deixado a solidão manifestar-se, sem nada temer. E, assim, quem sabe, eu tivesse compreendido a importância e a satisfação de estar realmente só. 

Definitivamente, não me amei à primeira vista. Talvez tenha faltado apenas uma segunda olhada para que eu reconhecesse neste patinho, feio e desajeitado, um cisne, elegante e confiante de si. 

Porque foi isso que aconteceu: acabei descobrindo que posso, sim, ser apaixonante. Mas só para quem for capaz de me enxergar com os meus próprios olhos.

E estes, sinto informar, somente a mim foram dados.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Epifania.


“Poucas vezes em minha vida tive momentos de absoluta clareza. Como quando, por alguns segundos, o silêncio abafa o ruído e eu posso sentir mais do que pensar. As coisas parecem tão claras. O mundo parece tão renovado. É como se o mundo todo começasse a existir. Não posso prolongar esses momentos. Me apego a eles, mas, como tudo, eles se desvanecem. Minha vida foi vivida nesses momentos. Eles me trouxeram de volta ao presente e percebi que tudo é exatamente como deveria ser”.

George, personagem do filme “A Single Man” (2009).

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Voa, coração!

Considero-me, apesar das crises de identidade, uma pessoa razoável e coerente quase que a maior parte do tempo. Até nos defeitos - porque os carrego sempre comigo. Mas a verdade é que, nas últimas semanas, eu vinha convivendo com uma incoerência de personalidade - logo eu, que tanto condeno a incoerência - que, se por um lado me conferia certo equilíbrio, por outro, me confundia um bocado.

Talvez fossem minhas duas inquilinas manifestando-se desordenadamente, brigando por espaço, em uma sufocante batalha interna entre razão e emoção. Porque eu posso, muitas vezes, ser exata, matemática e científica; mas meu coração fala alto e chora por pouco. E como é imenso! Sem, contudo, ser grande o bastante para carregar, resignado, as limitações que de mim se exteriorizam e as frustrações que sou especialista em colecionar.

Por conta disso, vinha alternando momentos de profunda paz interior e satisfação de ser quem eu sou, com picos momentâneos, mas agudos, de desorientação e questionamentos. Sentia-me tão perto de me reencontrar quanto de me perder por completo. Eram os evidentes altos e baixos de uma pessoa inquieta como eu.

Fato é que meu coração encontrava-se sufocado e dominado por sentimentos tāo frustrantes, que eu já não podia fazer qualquer coisa para acalmá-lo. Instaurava-se um furacão, com a maior facilidade, dentro do meu peito. E eu cometia erros infantis e colocava tudo a perder.

Hoje, aprendi que nāo posso sufocar tais sentimentos e, na maioria das vezes, sequer controlá-los. Mas que posso, sim, lidar racionalmente com eles, em quase todas as situações. Basta, para isso, dar-me o tempo necessário para compreendê-los e, só entāo, tomar qualquer açāo. Simplesmente não agir sem antes pensar; parece fácil, não?

Mais que isso, hoje sei que o caos, que às vezes me acompanha, pode ser útil para desafogar o coração; para eliminar aquilo que o envenena, deixando-o leve. E coração leve é mente livre.

Assim, liberdade e leveza dão espaço à expressão verdadeira da minha essência, que, então, abre-se a possibilidades reais de transformação e crescimento interior.


Esses têm sido os meus dias por aqui, em férias desse dramático mundo hiperbólico de anseios e preocupações que me tragavam para a escuridão.

Como eu disse, são somente férias. É provável que, estando de volta, eu me depare com o caos mal resolvido que deixei para trás quando, entre soluços e lágrimas, vim brincar de ser independente. No entanto, isso já não me preocupa muito. Porque a situação pode ser a mesma, mas eu, definitivamente, não sou.

Só falta, agora, me livrar deste gostinho amargo  - resquício de palavras e gestos nada doces que eu manifestei - que não quer me abandonar.

"Voa, coração, que a minha força te conduz; que o sol de um novo amor, em breve, vai brilhar. Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz; clareia seu caminho e acende seu olhar. Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia. Colhe a mais bela flor, que alguém já viu nascer. E não se esqueça de trazer força e magia, o sonho, a fantasia e a alegria de viver."

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Liberdade.

"Como um pássaro estarei a voar...
E minha alma a flutuar...
Livre como o pássaro no ar...
Deixo a paz me dominar".

quarta-feira, 14 de julho de 2010

You'll Be In My Heart

[Para a pessoa mais importante da minha vida. Dentro de 10 dias estaremos juntos novamente.]

 

"Come stop your crying, it will be all right. Just take my hand, hold it tight. I will protect you from all around you, I will be here, don't you cry. For one so small, you seem so strong. My arms will hold you, keep you safe and warm. This bond between us can't be broken. I will be here, don't you cry. 'Cause you'll be in my hear, yes, you'll be in my heart, from this day on now and forever more. You'll be in my heart, no matter what they say, you'll be here in my heart, always. Why can't they understand the way we feel? They just don't trust what they can't explain.I know we're different but, deep inside us we're not that different at all. Don't listen to them, 'cause what do they know? We need each other, to have, to hold. They'll see in time, I know. When destiny calls you, you must be strong, I may not be with you, but you've got to hold on. They'll see in time, I know, we'll show them together. 'Cause you'll be in my heart, yes, you'll be in my heart, from this day on, now and forever more. You'll be in my heart, no matter what they say. You'll be here in my heart, always".

terça-feira, 13 de julho de 2010

Diário de viagem.

"And those who were seen dancing were thought to be insane by those who could not hear the music".

Neste espaço momentâneo de liberdade, minha natureza questionadora ausentou-se de mim. Noutros tempos, eu mal conseguia entender o que me agarrava tão fortemente a ela; neste instante, observo-a apenas de longe. E, assim, desvendo um pouco mais da minha essência; sobra mais espaço para estar em consonância comigo mesma.

Nesta solidão, que nada tem a ver com ressentimento de estar sozinha, reconheço apenas a minha existência. Não estou para ninguém, só acessível para mim mesma.

Enquanto, em uma cafeteria, tomo um 'Icespresso', sentada à mesa de uma calçada qualquer, escrevo* nisto, que passei a chamar de ‘diário de viagem’. Trata-se de um caderninho que ganhei, antes de partir, de alguém que achou que eu faria bom uso dele.

Não estou na minha zona de conforto, mas me sinto incrivelmente confortável. Não estou na mesa de sempre do meu café habitual, não aguardo chegar um velho amigo que me fará companhia durante o almoço, sequer tenho comigo meu celular. Somos apenas eu e a alegria de estar desfrutando da minha própria companhia. É um bocado revigorante!

Porque aqui ninguém se preocupa com o que eu sou ou deixo de ser. Neste lugar desconhecido, sou mais uma no compasso anônimo da solidão urbana. E ela bate tão forte quanto o coração que levo no peito, exultante com a não obrigação de roteiro, horários ou destinos. É a mais fascinante das liberdades: a do deslocamento sem compromisso com nada.

Sinto-me como uma pessoa que há muito não se permitia dançar, mas que, hoje, resolveu, sem medo de ser feliz, arriscar alguns passos de dança, aqui mesmo, nesse país que sequer possui uma dança que o caracterize.

E como é bom dançar!


*Esse texto - como muitos dos que tenho postado no blog - foi originalmente escrito à mão, nas páginas de um caderninho que, de fato, me foi dado com esse propósito.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Niagara Falls.

"I got no time to be where I don't need to be".



Hoje saí, sem rumo, para brincar de ser turista independente, nesta cidade aonde há pouco cheguei; saí para brincar de ser eu mesma. E, acreditem, adorei a brincadeira!

As lembranças do meu país, da minha língua materna e das pessoas que eu amo me dão a noção de referência que eu preciso para não me sentir perdida aqui, acima da linha do Equador.

Mas, sentir-me perdida, já não me importa tanto. Como já não me importa o fato de não conseguir manter os cabelos arrumados (culpa da umidade do ar), de ter o pescoço sempre suado pelo calor quase insuportável e os pés inchados de tanto andar.

Pés, estes, que têm me levado por caminhos nos quais nunca me sinto sozinha, apesar de estar. Só o vento me dá a direção. E, por esses caminhos, sigo sem olhar para trás, no pretexto de viver mais um dia de paz e felicidade.

E, assim, aos poucos, mudo a minha forma de ver o mundo. Ou, ao menos, esse pedacinho do mundo. Talvez o mundo, daqui, me veja diferente também. Eu me sinto diferente...

E sorrio à toa!

*O chocolate quente, de que eu tanto gosto, nesse calor, ficou inviável. Minhas paradas em cafeterias, aqui, são regadas a 'Icepresso', 'Frappuccinos' ou 'Peach Lemongrass Iced Tea', que eu adoro e são muito refrescantes.

domingo, 11 de julho de 2010

Eu escrevo para ser feliz.

Como a viagem não me consente muito tempo para blogar (ótimo sinal!), deixo que o grande Ferreira Gullar fale por mim. O assunto é poesia, embora eu acredite que isso valha para toda forma de palavra escrita.

“(...) quando vou escrever (...), a página está em branco, e isso significa que todas as possibilidades estão abertas, são infinitas. No momento em que sorteio uma palavra, reduzo as possibilidades, o acaso é menor. Mas não sei o que vai acontecer.

(...) (Escrever) é cura, não doença. Escrevo para ser feliz, para me libertar do sofrimento, não para sofrer. É a alquimia da dor em alegria estética. Mesmo quando a coisa é doída, amarga, naquele momento a transformo no ouro (que é a escrita) (...). Discordo quando dizem que a arte revela a realidade. Na verdade, a arte inventa a realidade. Afirmam que Shakespeare revelou a complexidade da alma humana; não, ele inventou a complexidade da alma humana. Nós vivemos no mundo da cultura. (...) (Escrever) é uma dessas criações, no terreno da fantasia, que existe porque a vida não basta. Eu escrevo para ser feliz, escrevo porque estou me inventando, para ser melhor do que sou.

Eu sou incoerente, e a minha obra é incoerente.  Não tenho a preocupação da coerência. Se há alguma, está na busca, que muda sempre, porque, enquanto vivo, critico, penso, repenso e invento as coisas que experimentei. Se você quer (escrever) (...), se sente dentro de si essa necessidade, deve se entregar a ela sempre com paixão, pois não se inventa a realidade de graça”.

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte;
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

(Ferreira Gullar)