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quinta-feira, 1 de julho de 2010

A arte de fazer as malas.

Alguém conhece um ritual infalível para arrumação de malas? Eu nunca sei por onde começar.

Viajar é muito bom, mas fazer malas é chato demais! Principalmente para viagens longas. E ser parcimonioso na seleção do que carregar na bagagem pode contribuir para o sucesso ou o fracasso do passeio. Nós bem que tentamos não levar coisas demais nem coisas de menos. Mas quem acerta sempre?

Cheguei à conclusão de que arrumar as malas é uma arte! A arte traiçoeira de fazer previsões.

Arrumá-las exige antecipar grande parte da viagem, o que pode ser um tanto complicado se, como eu, você está indo para uma viagem relativamente longa, sem praticamente nenhum planejamento ou roteiro definido.  Acertar no que levar, nesses casos, é quase uma loteria. Sem falar no pouco dinheiro (não dá pra ficar comprando pelo caminho o que nos esquecemos de levar; tampouco podemos nos dar ao luxo de pagar por excesso de bagagem nos embarques). 

A vantagem é que vou viajar sozinha e ninguém vai reparar se eu usar 4 dias seguidos a mesma bermudinha jeans! Talvez a recepcionista de algum albergue... Ou as fotos me denunciem depois. :) Felizmente, tenho jogo de cintura e não me apego a muitas “mulherices”, o que, certamente, coopera para a redução do peso da minha bagagem.

Acomodar nossos pertences dentro daquele espaço, sem amassar ou quebrar nada, é outra arte. Exige tempo, paciência, organização e muita noção espacial. E é cansativo! Isso, sem falar na chatice de ter que fazer e refazer mala a cada 2 ou 3 dias, se for o caso de termos vários destinos.

Parto dentro de 4 dias para uma viagem de 3 semanas. Estou-me preparando psicologicamente para começar a fazer a mala. Tenho uma lista (faço lista pra tudo, lembra?), improvisada às pressas, que precisa ser revista. Vai ser o ponto de partida, mas ainda não sei exatamente o que vou levar e o que vou deixar.

Contudo, dessa vez, decidi ser econômica: troquei a mala grande por uma pequena e vou tratar de viajar só com o estritamente necessário. Faz parte de uma proposta interior de não deixar que excessos de qualquer tipo me impeçam de vivenciar aquilo a que me proponho. É outro desafio. 

Nesse contexto, é que tampouco pretendo, durante a viagem, sustentar nos ombros o peso excessivo de (des)utensílios como medo, ansiedade, desânimo, apego, tristeza, insegurança e afins. Esses, faço questão de não levar.

Não vou carregar nenhum excesso de carga sentimental nas próximas 3 semanas. Garanto pra você!

Vou lá fazer a mala - uma só, assim mesmo, no singular - e já volto.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A viajante independente.

 Decidi que já era hora de passar pela experiência de viajar sozinha. Não sei se estou fugindo de alguma coisa ou se estou perseguindo outra. Talvez eu esteja fugindo de mim mesma; talvez esteja tentando me encontrar.

Mesmo que muito provisoriamente, deixo para trás, não só a minha cidade e o meu país, mas uma parte da minha vida, composta de inquietações, problemas, incertezas. É o meu momento de libertação, embora parte de mim, eu sei, vá ficar com aquilo que deixo pra trás. Porque a saudade vai existir – já fiquei meses longe de casa e conheço a sensação –, mas estou pronta pra curtir a minha própria companhia e praticar o desapego.



Não vou estar sozinha o tempo todo, porque a ideia dessa viagem começou com o convite de um amigo para me hospedar na casa dele. Vai ser muito bom matar a saudade dessa pessoa tão querida, que se mudou para tão longe! Mas não pretendo ficar 3 semanas em uma só cidade e perder a inebriante oportunidade de ter tempo para mim mesma, sem filho, mãe, vizinho, cachorro, papagaio... Serão dias de me isolar no meio de uma multidão de desconhecidos.

Para quem está acostumado a viajar sozinho, isso tudo pode parecer trivial. Mas para quem nunca foi turista independente (e tem filho pequeno de quem morrer de saudades), é um grande passo. E faz parte de um processo de autoconhecimento pelo qual estou passando.

Quero que essa viagem seja uma overdose de desapego, com momentos de liberdade total e de intensa busca pela minha essência e independência. Quero aprender a conviver com os meus defeitos e descobrir novas qualidades; superar meus limites no que diz respeito a deixar de fazer certas coisas simplesmente porque não tenho com quem compartilhar o momento. É hora de trocar a insegurança pela disposição - e satisfação - de estar sozinha; de perder o medo de mim mesma.

Quero viajar sem acompanhante, sem roteiro certo. Quero perder referências, sair da minha zona de conforto, seguir novos caminhos. Quero fugir da ‘síndrome do overplanning’; quero me desprogramar e me reinventar. Quero encarar o imprevisível de frente, desfrutar da liberdade de ir e vir, sem ter que entrar em consenso com ninguém, além de mim mesma, acerca do próximo destino. Se for pra entrar em conflito, discutir, questionar, que seja só comigo.

Quero ser flanêur por uns dias. Na plenitude!

Fazer essa viagem sozinha foi uma escolha consciente de alguém que precisa de tempo para si própria. Muito provavelmente me perderei pelo caminho (geográfica e metaforicamente falando). Mas, aí, será uma ótima oportunidade de me reencontrar e voltar mais crescida do que antes, tendo aprendido a me virar um pouco mais sozinha. 

Não estou a exigir dessa viagem mais respostas ou descobertas do que ela pode me proporcionar. Estou apenas pronta para desfrutá-la e aceitar o que ela me acrescentará de positivo e negativo.

"Getting lost is not a waste of time".

terça-feira, 29 de junho de 2010

De um anjo.

Tenho vivenciado situações que ainda estão muito além da minha compreensão, mas que têm significado TANTO para mim! Tudo parece, de repente, mesmo que por um breve momento, fazer completo sentido. São ocasiões de profunda catarse.

Situações assim não são, exatamente, novidade na minha vida; experimento-as desde criança. Mas o fato é que, de uns tempos para cá, tenho sido orientada, aconselhada e guiada por uma pessoa que tem um coração fora do comum. Aliás, ela nada tem de comum. E receber essa orientação – por mais que eu tenha consciência de que devo buscar outros tipos de aconselhamento –, tem sido extremamente confortante e esclarecedor.

Quanto à parcela de entendimento que ainda não me foi possível vislumbrar - como me disse, certa vez, essa pessoa -, trata-se de um véu que nos impede de enxergar com absoluta clareza tudo que se mostra. E cabe a nós aceitar os mistérios por trás do véu, sem tentar investigar o que há além, tentando apenas compreender as lições que nos são apresentadas. Sábia amiga essa, que me tem guiado os passos.

Acho que esse véu funciona como uma membrana semipermeável, que permite enxergar somente o que nos é necessário naquele momento. Se mais não há que possa ser visto com clareza, mais não há que precisemos para agora.

Esses simples – ou aparentemente simples – eventos, quando norteados por pessoas mais experientes, têm-me esclarecido muitas coisas e me dado as respostas que eu tanto tenho procurado. E quanto mais eu deixo de QUERER, mais tomo consciência do que PRECISO. E, a partir daí, começo a receber exatamente o que necessito.


Comecei a escrever sobre isso para relatar um episódio ocorrido há poucos dias. Entenda como preferir: metaforicamente ou ao pé da letra. A ideia é transmitir a importância do que aconteceu. E fazer entender que, quando nos abrimos a novas compreensões e ampliamos nossos horizontes, sem preconceitos, acabamos ‘tropeçando’ nas respostas.

Surgiu diante de mim um “anjo” – ou seja lá qual nome você prefira dar a ele –, em um dia daqueles em que nada parece fazer sentido. E com palavras inteligentes – e tão doces –, aquele anjo me envolveu. Senti-me realmente abraçada por aquela mensagem de sabedoria, recheada de conselhos e de ternura. O “anjo” parecia saber exatamente o que eu precisava ouvir naquele momento. E me presenteou com uma verdade iluminadora.

Tendo consciência da energia positiva com a qual essa pessoa me preenche diariamente e da mensagem recebida através do “anjo”, tenho certeza que os efeitos provocados em mim acompanhar-me-ão durante as 3 semanas em que estarei fisicamente distante. Mas levarei comigo todo o bem que isso me causou, porque é quase impossível aquele anjo e essa pessoa saírem dos meus pensamentos.

Não sei quando encontrarei o anjo novamente, mas o prazo de validade dessa verdade iluminadora não vai expirar tão cedo.

Esteja, você também, aberto a novos entendimentos. É profundamente purificador. E faz um bem danado ao coração!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Da elegância.


Elegância. Substantivo melodioso, gostoso de pronunciar. E-le-gân-cia!  Até a palavra é chique! Encho a boca pra falar! Contudo, às vezes, tenho a sensação de que essa virtude anda meio esquecida no fundo de algumas gavetas.

Segundo Aurélio, pai de todos nós: e.le.gân.cia: (lat elegantia) sf 1 Graça e distinção no traje, no porte, nas maneiras. 2 Distinção na linguagem e no estilo.

A elegância de que quero tratar aqui é, antes de tudo, uma atitude. E vai muito além de sobrenome, status, roupas de grife, joias caríssimas, vocabulário rebuscado ou regras exageradas de etiqueta.  Não tem a ver com aparência, grau de instrução, dinheiro ou cultura. Tem a ver com a gentileza nas relações humanas, a maneira delicada de se tratar o outro.

Ser elegante é inserir-se no mundo sem arrogância, sem ar de superioridade. É ser suave no trato com as pessoas.  É saber debater, sem nunca subir o volume de voz; saber calar na hora certa e ouvir com humildade.

Ser elegante é jamais ser exagerado. Porque elegância é discrição. Assim, elegante é quem fala baixo, quem não ri alto demais, quem não usa decotes exorbitantes ou saias curtíssimas. Elegante é quem não faz perguntas inconvenientes ou comentários indiscretos, quem não bisbilhota a vida alheia, quem não quer saber demais. Elegante é quem dá ‘bom dia’ ao funcionário do prédio, à pessoa desconhecida no elevador. Elegante é quem não mente, quem honra as promessas que faz, quem demonstra gratidão. Elegante é quem não responde a uma agressão com outra agressão. Elegante é quem não fura filas, quem não joga lixo no chão, quem não buzina à toa no trânsito. Elegante é quem não xinga, quem não julga antes de conhecer. Elegante é não ser fútil.

Portanto, elegância não se reconhece por aquilo que a pessoa tem, mas pela forma como ela se comporta. Já dizia Machado: “há pessoas elegantes e há pessoas enfeitadas”.

Ser elegante é não invadir o espaço dos outros, não constranger quem está ao nosso redor; é fazer com que todos se sintam à vontade na nossa presença. Ser elegante é ser low profile, é elogiar mais que criticar, é não fazer fofocas, é saber consolar. Ser elegante é não querer aparecer, mas saber apreciar, com verdade, quando alguém reconhece nosso esforço, realização ou conquista.

Elegantes mesmo são aquelas pessoas que, naturalmente, atraem olhares, que se destacam, mesmo sem querer. Não tanto pela beleza física, mas pela grandeza de caráter, simpatia, gentileza, educação, nobreza de espírito e, principalmente, discrição. Porque ser elegante é saber ser reservado. "Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir." (Paul Valéry)

Isso não significa que ser elegante é abrir mão da parte estética, psíquica, cultural ou comportamental. Ser elegante é ser integral, abrangendo todos os aspectos da vida.

Ser elegante, no fim das contas, é uma questão existencial, de como você entende que se deve inserir no mundo. Não é moeda de troca, é uma escolha pessoal.

E nunca sai de moda.

Tenho a sorte de conviver com algumas pessoas elegantíssimas. Aprendo com elas diariamente, observando e colocando em uso. Porque elegância só se aprende, assim, praticando. E se faz perceber em gestos, atos, palavras, posturas e escolhas.

Que sorte a minha poder conviver com a elegância que emana de algumas pessoas e ser cingida por ela!

domingo, 27 de junho de 2010

O gato é que sabe viver.

“O gato é zen. O gato é Tao. Ele conhece o segredo da não-ação que não é inação. (...) O gato é um médium, bruxo, alquimista e parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente a nosso lado, a ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. O gato é um monge portátil à disposição de quem o saiba receber!” (Artur da Távola)
...
O gato é que saber viver. E demonstra, em cada gesto, tal sabedoria. Invejo muitos aspectos do estilo de vida do gato e tenho muito que aprender com ele. Conviver com o gato é uma verdadeira lição de vida.

O gato é livre e preza essa liberdade. Ai de quem tentar privá-lo dessa condição! O gato veio ao mundo para ser assim. E se aceita viver com seres humanos, é em interesse próprio e em regime de comunhão total de bens: o gato passa, também, a ser dono da casa; faz dela seu território sagrado.

O gato é independente. Pede carinhos, mas retribui se sentir vontade. E se for negado carinho ao gato, ele sequer liga. Porque o gato é senhor de si. Não se abala com pouco. O gato é bem resolvido e não guarda carências. O gato, definitivamente, não é escravo do afeto.  As pessoas deveriam aprender com o gato e seriam mais felizes em seus relacionamentos.

Além disso, o gato não é dado a negociações. Ele decide quando, como e onde. Os seres humanos que aceitem, se quiserem. Não querendo, o gato não esquenta a cabeça, porque é autossuficiente; ele pula, corre, brinca, rola, deita e dorme. Porque é sábio, o gato, e conhece os benefícios de uma boa dose de sono diária. E dorme com entrega total. Não perde o sono com ansiedade e preocupações.

O gato é intenso! Vive na plenitude. Brinca como uma criança despreocupada em um parquinho de diversões. Tem andar elegante e preciso – como os movimentos de uma experiente bailarina. Tem uma autoconsciência corporal que idolatra e resguarda. Tem personalidade caçadora e um ar meio blasé. O gato faz da vida o que quer; é curioso e aventureiro.

Tem olhos intimidantes e misteriosos. O gato sustenta aquele olhar vago, distante, quase ausente, absorto em seus próprios pensamentos. Tente decifrar o que vai no interior do gato nesse momento. Ele vai achar graça! Quem de nós consegue um período de introspecção, sem ser importunado por perguntas do tipo: “o que você está pensando?”; “está tudo bem?”, “por que você ficou tão quieto de repente?”.

O gato gosta do silêncio; não mia à toa. É meditativo e venera o isolamento. Afronta a solidão com valentia e grande satisfação de estar só.

O gato é preguiçoso. E entrega-se à preguiça sem culpa. Adora descansar! Se algo desperta o interesse do gato durante um cochilo, ele abre um olho apenas e checa o que se passa à sua volta. Só aí decide se torna a cochilar ou desperta para explorar seu território.

O gato ama sem apego. Porque o gato é do mundo e não admite a posse. O gato ama livre, ama independente. Jamais aceita cobranças; nunca acata ordens. O gato exige ter sua individualidade respeitada. Porque o gato determina seus momentos de ficar sozinho e exige que sejam atendidos. Às vezes, é tão difícil às pessoas entender o apreço alheio por momentos de solidão. É quase um tabu nas relações pós-modernas.

E, quando o gato ama, diria Quintana, ama baixinho, sem gritar seu amor de cima dos telhados. Ama com discrição e maturidade. Ama com inteligência. O gato não assedia, não importuna com pedidos e carências a serem supridos. Quantos relacionamentos humanos são assim?

O gato é da vida e busca obter o máximo dela. É feliz com pouco; qualquer novelo de lã o diverte. O gato não se preocupa com o que os ‘outros’ pensam dele; o gato não tem medo de fazer papel de bobo. Mas o gato é orgulhoso. E, uma vez traído, nunca voltará a confiar.

O gato é vaidoso. Quer sempre estar limpo. Sua pelagem é seu templo. Quando se lava, evita contato com os seres humanos. Se tocado, volta a se limpar. A higiene, para o gato, é um ritual sagrado.

E o gato é teimoso. Tente convencer o gato a tomar banho ou remédio, a cortar as unhas ou simplesmente a sair de onde ele quer ficar. O gato volta. Quantas vezes precisar. Se não volta, é porque a vontade passou. O gato nunca se curva aos seres humanos. Não se submete porque não sente a necessidade doentia de agradar o tempo inteiro. O gato é autêntico e não ama se anulando. Já os seres humanos...

Ter um gato em casa é entender o amor sem posse. Amar um gato é amar incondicionalmente, porque nem sempre o gato vai estar disposto a demonstrar amor. Porque o gato não veio ao mundo para satisfazer as obrigações doentias do amor possessivo – que é tudo, menos amor.


...

Dois gatos me tiveram nessa vida:

Lisa, a gatinha vira-latas, nascida na hípica, que me escolheu para ela, entrando, ainda filhotinha, no meu carro e na minha vida. Na foto, já nos últimos dias de vida, hipotérmica e impossibilitada de andar, por conta de um tumor imenso na coluna. Só queria saber de ficar embaixo do meu edredom ou no colo, na tentativa de compensar a hipotermia - ela, independente e dona de si, que nunca fora de colo.  Foi uma guerreira! Lutou até o final. Morreu na mesa de cirurgia, pelas mãos da veterinária mais humana que eu conheci em toda minha vida, que nos propôs levá-la para a mesa de cirurgia, na tentativa de retirar o tumor (essa mesma veterinária salvou meu cavalo  - com homeopatia - de uma cegueira à qual outros veterinários já o tinham condenado). O que  me comoveu foi a sinceridade e sensibilidade da Dra Serena, quando me disse: “Lê, o que estou fazendo pela Lisa, é uma forma humana de sacrificá-la. Não estou abrindo mão da tentativa de salvá-la, mas esteja consciente de que as chances são mínimas”. E o coraçãozinho dela não aguentou. Acompanhou-me por 14 anos e me deixou em 2006.


Gaia, minha grande companheira, durante 15 anos, que morreu, em casa, justo no dia do meu aniversário do ano passado, de insuficiência renal. Foi uma guerreirinha também, porque, quando  filhote, sofreu uma queda da janela do quarto andar. Passou por várias cirurgias, muitos dias de internação e grande parte da vida com pinos, fios de aço e todas as demais sequelas do acidente, sem nunca perder a alegria de viver.

sábado, 26 de junho de 2010

Como você não seria?

Seguindo o raciocínio do post de ontem, escrevo agora um texto sobre como eu NÃO SERIA se eu não fosse tudo que não sou, não gosto, não quero, não tenho, não uso e não sei.

Acredito que eu não seria mais ou menos assim:
 Não sou outra. Tampouco sou eu mesma o tempo inteiro. Certamente não sou quem eu era há alguns anos. Pra ser sincera, até há alguns meses. Não sou rascunho, tampouco sou obra concluída. Não sou bússola, âncora ou cais. Não sou fortaleza indestrutível, certeza absoluta ou fibra irrompível. Não sou matéria secundária, antecâmara ou obrigação acessória. Não sou pouco, pela metade ou só um pedaço. De jeito nenhum sou incompletude. Não sou casulo, ilha ou concha. Não sou mágoa, ódio ou rancor. Tampouco sou ruminação. Não sou turmas, traumas ou tramas. Não sou preconceito, intolerância ou radicalismo. Não sou censura, tirania ou violência. Não sou intromissão, superficialidade ou descontextualização. Não sou TPM, GPS ou SBT. Não sou funk, axé ou sertanejo. Não sou família grande, milhões de amigos ou casa sempre cheia. Não sou ira, gula ou inveja. Não sou esposa, neta ou filha do pai. Não sou quietude, calmaria, mas tampouco sou caos. Não sou alho, cominho ou pimenta do reino. Tampouco sou muito orégano. Não sou paciência ou espera sem fins. Não sou ciúme, possessividade ou cobrança. Não sou revista Caras, novela global ou tietagem. Tampouco sou muita televisão. Não sou leite puro, café amargo ou vinho branco. Não sou gordura trans, lactose ou açúcar. Não sou abacaxi em calda, batata frita ou carne vermelha. Não sou camiseta de banda, sandália em dia de chuva ou piscina que não dá pé. Não sou enganação, mentira ou traição. Não sou sala de espera, conversa de elevador ou choro reprimido. Não sou colônia - de ocupação ou exploração-, tampouco sou metrópole. Não sou multidão, empurra-empurra ou congestionamento. Não sou mais 20 anos. Não sou omissão, evasão ou pouco caso. Menos ainda sou ausência. Não sou queda de energia, pneu furado ou conexão lenta. Não sou comédia escrachada ou romance aguinha com açúcar. Não sou passividade, submissão ou deglutição de sapos. Não sou separação, adeus ou despedida. Não sou porta de escola, posto de gasolina ou supermercado com filas. Não sou frescura, futilidade ou consumismo. Tampouco sou modismo. Não sou orgulho, hipocrisia ou pequeneza de espírito. Não sou idealismo, perfeição ou autossuficiência. Não sou palavrões ou gírias. Não sou frieza, alienação ou enrolação. Não sou rebeldia sem causa, vulgaridade ou curiosidade alheia. Não sou simpatia o tempo inteiro. Não sou falso moralismo, julgamento ou extremismo. Não sou palco ou holofotes; tampouco sou coxia. Não sou saia justa, meia molhada ou sapato apertado. Não sou velório, entrevista de emprego ou metrô lotado. Não sou afinação ou qualquer instrumento musical. Não sou tempo úmido, céu nublado ou chuva que não para. Não sou telefone, ferro de passar ou panela de pressão. Não sou whisky, refrigerante ou cerveja quente. Não sou música alta, palavras gritadas ou poluição sonora. Não sou avesso, encosto ou veneno. Não sou agenda, rotina ou despertador. Não sou letargia, apatia ou inanição. Não sou 40º C, 8 ou 80, ½ ou 1-7-1. Tampouco sou 100%. Não sou muitíssimas coisas. Há aquilo que não sou, exatamente porque decidi não ser; há, contudo, aquilo que não me foi possível evitar. Há o que não sou, também porque não tive oportunidade de ser; ou, então, porque ainda não chegou o momento de sê-lo. Seguramente, há uma parcela do que não sou, porque não batalhei o suficiente para ser. Não sou a única assim. Faz parte da vida. É certo que não sou, ainda, tudo que eu gostaria de ser. Provavelmente nunca serei. Apesar disso, muito prazer, continuo sendo Letticia. Porque o que eu não sou, o que eu não gosto, o que eu não quero, o que eu não conheço, o que eu não tenho, o que eu não faço e o que eu não uso, tudo isso faz parte de mim.

Ufa! Como é bom ter consciência também do que a gente não é.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Se puder, sem medo.

Como você seria?

Como você seria se pudesse SER tudo aquilo que você é, faz, gosta, quer, tem, sabe e usa?

Acho que eu seria mais ou menos assim:

Sou de pai e mãe. Sou ‘meia portuguesa, meia calabresa’.  Sou domingo, agosto e dia dos pais. Sou cabelo castanho, coxa grossa e toda coração. Sou Itália, Brasil e Península Ibérica, lá e cá. Sou amor incondicional, amizade inusitada e cinema alternativo. Sou light, integral e sem açúcar. Sou lua cheia, céu estrelado e barulho de mar. Sou inverno, cama queen e cobertor de orelha. Sou Nancy Rosa, Lígia Maria e Anna Carolina, desde pequena. Hoje sou Lucca também. Sou até um pouco Lunna. Sou Lisa e Gaia, Laio e Orpheu na lembrança doída. Na saudade, também sou Djalma. Ih, na saudade sou tanta gente! Sou desassossego, ansiedade e indecisão. Sou humanas, exatas e igualmente das duas. Sou administração, fotografia e ciência social. Sou tato, olfato e audição. Sou matemática, estatística e finanças. Sou HP12C. Sou cappuccino, café e chocolate quente. Sou livros, livros e livros. Sou livros também. Sou pão, queijo e vinho tinto. Sou seca, encorpada e frutada. Sou excitação, intensidade e plenitude. Sou até exagero. Sou nostalgias, desejos e vontades. Sou cumplicidade, dedicação e companheirismo. Sou encruzilhadas, retornos e separações. Sou queijo com goiabada, requeijão com geleia, salada com frutas e iogurte com cereais. Sou Londres, Firenze e Rio de Janeiro. Sou musicais, banco de praça e bombom de cupuaçu. Sou rosto colado, beijo demorado e abraço apertado. Sou chocolate amargo, bolacha Passatempo e torta holandesa. Sou facebook, flickr e weblog. Sou moletom desfigurado, meia grossa e pijama de ursinho. Sou música, prosa e poesia. Sou pão de queijo, brigadeiro de colher e sopa de letrinhas. Sou fondue de queijo e chocolate. Sou delicadeza, gentileza e educação. Sou balança e equilíbrio. Sou dois lados da mesma moeda. Sou palavras cruzadas, estória em quadrinhos e quebra-cabeças. Sou Kopenhagen, Nestlé e Haggen Dazs. Sou vinho quente, paçoca e milho cozido. Sou cavalos, gatos e borboletas. Sou coruja também. Sou mergulho de cabeça, entrega e compromisso. Sou luxúria e vaidade, tenho que confessar. Sou filosofia, sociologia e religião. Sou tiro, hipismo e taekwondo. Sou um monte de defeitos, muita transparência e total aceitação. Sou compreensão, piedade e participação. Sou Nextel, Nikon e PC. Sou Michelangelo, Aurélio, Quino, Montenegro e Bezerra. Sou mel, suco de frutas e água com gás. Sou jeans, cachecol e Contradiction, CK. Sou livraria, supermercado e cafeteria. Sou padaria e estádio de futebol também. Sou arquitetura, pintura e escultura. Sou grãos, sementes e todo tipo de nuts. Sou fogo, noite e sou embaixo do edredom. Sou verdade, sinceridade e cordialidade. Sou flexibilidade, abertura e elasticidade. Sou observação, sensibilidade e captação. Sou troca, tolerância e entendimento. Sou leitura, silêncio e solidão. Sou hematomas inexplicáveis, bolhas nos dois pés e queda de cabelo. Sou asma, rinite e dor na coluna. Sou banho quente, listas, girassóis e à meia luz. Sou viagem, chegada e partida. Sou suficiente inglês, em desenvolvimento espanhol e bom português. Sou sudoku, poker e xadrez. Sou medo, insegurança e confusão. Sou palavra escrita, diálogo e prolixidade. Sou suficiência, independência e ponderação. Sou inteligência, curiosidade e sugestão. Sou laranja, verde e vermelho. Sou perdão fácil, sorriso sincero e, às vezes, arrependimento. Sou grito preso na garganta. Sou detalhes, perfeccionismo e exigência. Sou intuição, tentação e boa intenção. Sou frutas, verduras e legumes. Sou quase comida vegetariana. Sou sopas, massas e comida japonesa. Sou leão, Balzac e anos 80. Sou dengo, colo e companhia. Sou sexo, paixão e amor na mesma medida. Sou profundidade, altura e largura. Sou forma e conteúdo. Sou montanha russa, desfile de escola de samba e banho à luz de velas. Sou madrugada, insônia e sono leve. Sou hoje, amanhã e depois. Sou dentro, fora e em todo lugar. Sou repleta. Sou, acima de tudo, busca constante, procura incansável e autoconhecimento infinito. Muito prazer! Sou Letticia.

...

Gostei muito de escrever esse texto! Com certeza, outro dia, vou escrever como eu NÃO SERIA se eu não fosse tudo aquilo que eu não sou, não tenho, não gosto, não uso, não sei e não quero. :)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A borboleta branca.

O dia em que dei carona a uma borboleta branca.

"I always wonder why butterflies choose to stay in the same place, when they can fly anywhere on the Earth. Then, I ask myself the same question”.

 Na cultura popular japonesa, a borboleta branca é vista como a alma de uma pessoa já falecida. Gostava de pensar que isso é verdade.

...
Estava eu, dia desses, dirigindo de janela aberta, quando parei no semáforo e notei uma linda borboleta branca batendo asas em volta do meu carro. Tão livre e delicadamente quanto só é possível a uma borboleta branca.

Fiquei observando, encantada, a displicência precisa existente nos movimentos daquele inseto.

Beleza, delicadeza, precisão, confiança, mobilidade, liberdade, independência, autonomia... É, eu deveria ter nascido uma borboleta branca.

Quando o semáforo abriu, eis que a pequenina borboleta decidiu compartilhar comigo mais alguns instantes da sua total liberdade de ir e vir. Entrou voando pela janela e pousou graciosamente em um dos meus dedos que seguravam o volante.

Que alegria! Ficamos lá, a borboletinha e eu, vivenciando aquela inesperada epifania. Tão singular e tão embriagante! Senti-me presenteada por aquele animalzinho.

Foi um daqueles pequenos acontecimentos que enchem nosso espírito de felicidade e nos fazem pensar nos milagres da vida. Gostei de acreditar que era a alma de uma pessoa que escolheu estar comigo naquele momento. Quanto privilégio!

A borboletinha me acompanhou, confiante e segura, até o semáforo seguinte, quando parei novamente no vermelho. Ela, então, decidiu que era hora de partir, afinal, as borboletas não foram “inventadas” (como pensaria Brás Cubas) para permanecer. A elas lhes foi sagrado o direito, total e irrestrito, de locomoção.

Mas como alguém que se apega a determinada situação, ela permaneceu ali, rodeando meu carro, despedindo-se apropriadamente de mim. Ou, talvez, permitindo, carinhosamente, que eu desfrutasse por mais alguns segundos do prazer da sua companhia.

O semáforo esverdeou. Era a minha hora de partir. E a linda borboletinha branca, como se não suportasse a dor do adeus, chocou-se contra o meu para-brisa em um ato suicida.

E eu voltei pra casa chorando, sem conseguir encarar aquele pequenino cadáver desfigurado, grudado no vidro do meu carro.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O silêncio.

Meu pai foi uma pessoa que morreu sem compreender a singeleza* do silêncio. Recordo-me de diversas situações em que nós dois estávamos juntos, sozinhos, e ele reclamava da ausência de conversa entre a gente.

Ele interpretava o meu silêncio como antipatia ou desinteresse por ele. Meu pai nunca entendeu – e eu nunca soube explicar – que, se eu ficava em silêncio na presença dele, era por estar tão à vontade, que julgava não ser necessário falar.

Depois de um tempo sendo cobrada por isso, percebi que ele não estava preparado para aceitar o meu silêncio como testemunha da cumplicidade que existia entre nós dois; como algo especial que podíamos compartilhar, sem constrangimento, como pai e filha que éramos.

E foi assim que eu, ainda adolescente, deixei de ser espontânea com o meu pai. Passei a me sentir obrigada a falar o tempo todo sobre algum assunto qualquer. A partir daí, os dias na companhia dele tornaram-se bem menos agradáveis para mim. Imagino que para ele tenha sido o oposto, afinal, eu me adequara à exigência dele de não permitir que o silêncio se manifestasse nas nossas presenças.

E eu acho o silêncio uma manifestação tão verdadeira...

Ainda penso nisso com muita tristeza. Cheguei, algumas vezes, a fingir que estava dormindo para evitar essas situações.

Acredito que o grau mais elevado de cumplicidade que duas pessoas podem experimentar é o silêncio que não incomoda, que não causa constrangimento, e que nada tem a ver com falta de assunto ou com falta de interesse pelo outro. Aquele silêncio que tampouco diz respeito a planos concebidos em segredo e nunca compartilhados. Ao contrário, trata-se de um silêncio que deixa implícito o que as duas pessoas levam na alma.

Eu valorizo muito esse tipo de silêncio, porque somente ele dá espaço para que os espíritos se alcancem, para que as almas se conectem. “(...) assim como o som, que precisa do silêncio para se manifestar (...)”, “(...)tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.”

É um entendimento muito mais sutil e muito mais gracioso. É o tipo de silêncio que somente duas pessoas que ‘são em paz’ – sendo coerente com o meu post do dia 11 de junho – conseguem apreciar. É aquele silêncio gostoso durante um abraço, por exemplo.

É o silêncio que não mente, que não esconde; o silêncio que simplesmente se permite acontecer, sem constrangimentos, sem o compromisso com qualquer verbalização.  É um diálogo que se dá por meio de olhares, sorrisos e gestos. É o silêncio inteligente; o silêncio que se basta.

Hoje, nossas conversas têm lugar somente no meu coração; só o que existe entre mim e meu pai é o silêncio. O silêncio dele...


*Reaprendi essa palavra recentemente e me apeguei a ela.